quinta-feira, 10 de maio de 2012

“Todos pela Escola!... espalhados no pátio”. O Conflito do Educador no ato de lecionar na Bahia em 2012.


“Todos pela Escola!... espalhados no pátio”.  
O Conflito do Educador  no ato de lecionar na Bahia em 2012.
A Lei 10639/03 – A Diáspora Negra e as Mídias Socias.


Por Patrícia Bernardes Sousa



“Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena
Parabolicamará”

Gilberto Gil - Parabolicamará



Na terra fértil e musical chamada Bahia, está cada vez mais difícil elaborar planos de aula coerentes à realidade de crianças e jovens matriculados nas redes públicas de ensino. Educadores tradicionais se veem cada vez mais “cobrados” a uma mudança de postura na didática de sala de aula, por não entender que o sistema de aplicação  de “prova e teste”  não mais atende a nova turma de discentes do Séc.XXI .

Questionamentos dos mais diversos podem ser levantados aqui para se chegar a um diagnóstico preliminar (Luckesi. 1991:84) conforme a sua argumentação contrária a “pedagogia do exame”:

Quem são estes alunos?
Quem são os ídolos destes alunos?
Qual o entretenimento deste aluno quando estão fora da ambiência escolar?
Como esse aluno se vê diante da atual atmosfera socioeconômica que o circunda?


Voltando um pouco no tempo, podemos entender as circunstâncias de crise psicossocial dos educadores na Bahia. Uma terra folclorizada e de inúmeros sinônimos qualitativos com relação aos nossos hábitos cotidianos para atrair investidores estrangeiros e , desta forma, capitalizar ainda mais o sistema de educação privado, só poderia coexistir   no quesito “educação pública”.Os educadores oriundos de Paulo Freire, Milton Santos e que vivenciaram a era midiática de formação de opinião, tendo como ícones Chico Buarque, Milton Nascimento, João Gilberto, Caetano Veloso, Tom Zé e muitos outros artistas de sua época, se confrontam intimamente com a nova geração de jovens e crianças simpatizantes de MC Catra, Robsão, A Bronka, Lady Gaga, Rihanna,  e que nunca se deixaram cativar pelos livros de Jorge Amado , Fernando Veríssimo e , por vezes   perguntam :

“– Professor (a)! O senhor (a) vai dar aula até o final do tempo marcado?!”

Como criar atividades que provoquem nestes jovens, remanescentes do Bolsa Família , onde cada vez menos a “produção escolar”  é levada em conta e a frequência escolar (cadernetas administrativas) , é que são motivo de preocupação para as mães no final do ano letivo? Onde este discente negro irá buscar identificação para prosperar na carreira acadêmica, se ele próprio, cada vez menos, se vê na TV?
Toda prática educativa envolve uma postura teórica por parte do educador. Esta postura, em si mesma, implica às vezes mais, às vezes menos explicitamente – numa concepção dos seres humanos e do mundo. (Freire. 1982 p.42)


Os estudiosos sobre a “mídia social negra” e direitos humanos (Ferreira, Sampaio, Magalhães, Caribé. 2011p. 27:43) , afirmam que a este tipo de situação só cabe exemplos estereotipados de atores e atrizes, cantores (as), que referendam uma identidade racial qualificada para que este jovem “siga em frente”. Programas que “trabalham contra” a atividade diária do educador, se tornam frequentes na mídia e, por vezes, por conta do índice de audiência, ganham uma 2ª edição; como é o caso do Programa Brasil Urgente (Canal 07/Band Bahia) com exibição às 13hs e às 18hs assim como o Programa Na Mira (Canal 04/Aratu - SBT) com exibição às 11:50hs e às 18hs também. Além destes, existem programas nesta mesma “linha” de reportagens como Que Venha o Povo – QVP (Canal 04/Aratu – SBT)  e o Se Liga Bocão (Canal 05/ Record Bahia).

Vivenciar uma rotina de sala de aula com alunos sem uma alfabetização coerente a sua faixa etária e verificar a “omissão declarada” das Secretarias de Educação Estaduais e Municipais, diante de intervalos, ou melhor, relembrando, o chamado “recreio” que hoje  não tem a função de entreter o aluno em atividades  lúdicas ou para se alimentar. O intervalo hoje é o tempo utilizado por crianças e jovens de fazer uso indiscriminado de drogas lícitas ( ou por vezes ilícitas), “ajustar contas” com seus colegas desafetos e/ou servir de palco para programas de Tv , como o Universo Axé (Canal 04/Aratu - SBT) que levam para dentro do centro educacional , uma diversidade de bandas de pagode e axé que contrariam o trabalho diário do educador em sala de aula. Jovens estes que partem para o assédio moral  para ludibriar as instituições de educação e que facilmente são creditados para dentro dos muros das escolas com o fardamento “multilado”onde ,somente hoje por questões alegações financeiras , foi gradativamente sendo retirado o uso do tênis, a calça jeans e só restou a camisa com a logo marca da escola na qual o estudante pertence.

Como trabalhar em sala de aula com este (a) jovem negro (a) vislumbrando uma carreira profissional? Prestando a atenção nos detalhes de cada aluno (a) sem que o educador se utilize da hipocrisia do preconceito.


“Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será que será?
Será que esta
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...”

Podres Poderes – Caetano Veloso

Todo educador busca capacitação para estar em sala de aula diariamente. A maioria desgastada pela baixa remuneração e a cobrança diária dos seus gestores educacionais (diretores) repetem a mesma afirmativa:

“- Eles não querem nada!”  

A generalização dos exemplos nocivos enraizados no íntimo do educador , por conta dos rendimentos escolares cada vez mais baixos , abre lacunas cada vez maiores entre o educador e o educando. Por que não aproximar os(as) nossos(as) ícones negros (as) destes jovens? Por que não avançar para além do quadro didático habitual e , tendo como “pano de fundo”, as características que diferem o cantor  baiano Robsão do cantor mineiro Milton Santos? Por que não ouvir os jovens estudantes que desejam ser ouvidos? Por que não retrabalhar  também no seu íntimo meu caro educador a condição transformador de realidade ? Por que não também “baixar a guarda” concebida previamente no que diz respeito à imagem de um (a) jovem negro (a) que acabou de adentrar sua sala de aula e, exaustivamente já tem a sua imagem divulgada pela mídia local como a de um (a) jovem agressivo (a) dentro e fora da sala de aula por deficiência familiar e com referências midiáticas com apelo voltado somente para a audiência?

Em 2012, através de um quadro comparativo do sociólogo e  doutor em ciências sócias Rudá Ricci (1999) no âmbito da avaliação psicológica dos novos educadores do Século XXI ,analisado por mim anteriormente,pude   verificar que o fator financeiro e de segurança por  uma “aposentadoria” tem levado cada vez mais jovens acadêmicos a escolher a Pedagogia como solução “imediata” dos seus problemas. Poucos foram os educadores que ingressaram na carreira pedagógica por amor a profissão. O duelo moral e ético tem tornado cada vez mais rotineira a presença em sala de aula de educadores despreparados para lidar com questões religiosas e raciais em sala de aula.

O que fazer? Como se comportar? Como ser um educador diante de uma mídia cada vez mais estereotipada e preconceituosa? Como ser um educador diante de uma Secretaria de Educação “politicamente omissa” que permite a entrada destes tipos de programa de TV e anula por completo a atividade educacional programada  em lúdicas “Semanas Pedagógicas” exaustivas no pré-início do ano letivo?

É preciso repensar as condutas individuais deste educador participante do processo educacional do nosso estado, para que ele sinta-se parte e não mero coadjuvante no ato de lecionar para os (as) jovens negros (as) presente em cada instituição pública de ensino. É preciso motivar de forma a se rever a remuneração na qual este “agente educador” e posicionado diariamente para que ele identifique os seus deveres em sala de aula e renuncie ao discurso desgastado que a população estudantil do estado da Bahia não mais anseia um futuro profissional e serão “escravos” de bolsas governamentais assistencialistas e eleitoreiras.

Referências

LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da Aprendizagem Escolar: Apontamentos Sobre a Pedagogia do Exame. In Tec. Educ. Rio de Janeiro. V.20 (101) Jul/Ago.1991.

FREIRE, Paulo. Ação Cultural Para a Liberdade. 6 ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra,1982.

RICCI. Rudá. O Perfil do Educador para o Século XXI: De boi de coice a boa de cambão. Revista Educação & Sociedade. Ano XX nº 66, Abril/99.

CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988

BRASIL. Lei nº. 10.639 de 09 de janeiro de 2003. Inclui a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” no currículo oficial da rede de ensino. Diário Oficial da União, Brasília, 2003.

UFBA, 2011. A construção da violência na televisão da Bahia: um estudo dos programas Se Liga Bocão e Na Mira/Giovandro Marcus Ferreira... [et al.]-Salvador:109p.:Il.

MARTINS, Carlos Estevam. AP/ Cultura Popular. In Fávero, Osmar (Org.) Cultura Popular e Educação Popular: memória dos anos 60. Rio de Janeiro: Graal, 1983.

Um comentário:

Sonia Dias disse...

gostei das reflexões, Patrícia. Apesar de toda as dificuldades de ser profesor no Brasil, eles são a peça-chave para iniciar as transformações na vida de cada um de seus alunos.