domingo, 12 de setembro de 2010

Se for negão, o voto tá na mão?




por Jaime Sodré

“As aparências enganam aos que odeiam e aos que amam”… Segue a canção, reforçada pelo ditado de advertência conclamado por minha Vó Constança, com a sua voz carregada nos “erres” em nossos ouvidos e dedo em riste: “Não se engane com a cor da chita!”. “Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”. Este é um momento de agradecer ao professor emérito, Guilherme Radel. Motivado pelo artigo anterior, Radel deu-me o seu belíssimo livro: A Cozinha Africana na Bahia. Recomendo-o. Vamos ao “prato do dia”. A moça falou para eu escutar, presumo, enquanto fingia sonolência, que faço quando não quero conversas. “Voto em candidato negro para qualquer coisa, é minha cor!”. O sono simulado passou, caí em pensamentos em tempo de “ficha limpa”.

Temeroso é atribuir virtudes ou gerar preferências mediante critérios epidérmicos. Assim estruturou-se o racismo. Demonstrarei o caráter nocivo, antidemocrático ou perverso manifestantes em muitos personagens, independentemente da sua epiderme, lobo em pele de cordeiro. Reporto-me ao espaço africano e inauguro este malfadado desfile com a figura negra do ditador Jean-Bédel Bokassa ou Bokassa I. Derrotou o autoritário Dacko com um golpe e assumira o poder na condição de presidente e líder de um único partido, o Mesan. Começou a governar por decreto, se proclamou presidente vitalício, com posturas extravagantes instaurou o Império Centroafricano. Temido ditador onde a tortura era a prática cotidiana, teve 17 esposas e mais de 50 filhos. Morreu a 3 de novembro de 1966.

Idi Amin Dada Oumee é outra figura nefasta e mais conhecida. Ditador de Uganda, de 1971 a 1979. Genocídio e crueldades lhe valeram a alcunha de “o açougueiro” e “senhor do terror”. Era defensor de Adolf Hitler e favorável à extinção do Estado de Israel. Fora deposto por forças da Tanzânia, aliadas aos ugandenses. Brutal, promoveu segundo dizem, cerca de 300 mil assassinatos. Certa feita declarou-se Rei da Escócia, excêntrico, fora chamado de “Bug Daddy”, e em tom de deboche instituiu um Fundo Ugandense para a Salvação da Inglaterra. Faleceu em 14 de agosto de 2003.

Evidentemente, que os exemplos agora trazidos não traduzem a natureza do povo africano ou do povo negro. Temos figuras honradas, de histórias dignas, tais como Antonio Agostinho Neto, médico angolano formado em Coimbra, o primeiro presidente de Angola, governando de 1975 até 1979. Por suas qualidades foi-lhe atribuído o “Prêmio Lenine da Paz”. Presidente-poeta, Agostinho fez parte de uma geração de estudantes africanos empenhados na libertação do povo daquele continente. Foi preso pela PIDE portuguesa e fora deportado para o Tarrafal. Assumira a direção do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), sendo seu presidente honorário desde 1962. Foi substituído na presidência de Angola por José Eduardo dos Santos, atual presidente. A 10 de setembro de 1979 Agostinho falece em Moscou.

Ampliando o nosso quadro de qualificados negros, apresentamos Patrice Lumumba – Patrice Émery Lumumba, nascido no Congo Belga em 2 de julho de 1925. Foi ferrenho líder anticolonial, com ideias libertárias. Primeiro ministro eleito em 1960, na República Democrática do Congo, depois do seu empenho com outros para a conquista da independência frente à Bélgica. Foi deposto e barbaramente assassinado em janeiro de 1961.

A marca da maldade tem outras faces, brancas, assim é que Francisco Franco é reconhecido como ditador espanhol aliado de Hitler. Segundo dizem, Adolf o considerava desagradável. O franquismo fora um sistema repressivo e autoritário que levara a Espanha a uma cruel guerra civil com a experimentação bélica dos nazistas, bombardeando Guernica, aniquilando a província basca.

Espaço para a pele clara de Antonio Oliveira Salazar, português, se notabilizara por ter exercido o poder de forma autoritária, ditatorial, entre 1932 a 1968. Várias personalidades políticas, brancas, merecem respeito. A cor da pele não deverá entrar na história como determinante do caráter dos sujeitos. O ser humano, não importando seu tom racial, oscila entre o bem e o mal. Então, vale escolher o caráter, a honestidade, a solidariedade e o compromisso, como elemento fundamental para uma melhor escolha.

Fonte: Mundo Afro

Nenhum comentário: