quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Performance negra nos palcos baianos: talento e resistência


Escrito por André Luís Santana

O reconhecimento do talento de Lázaro Ramos e o sucesso nacional da obra teatral baiana Ó paí, ó, graças às adaptações para o cinema e para televisão, lançaram luz sobre a trajetória de uma das mais importantes companhias teatrais da Bahia, que há duas décadas vem desenvolvendo uma linguagem popular, baseada na estética negra. O Bando de Teatro Olodum é a mais consolidada companhia teatral do atual cenário baiano. Uma das poucas a manter um corpo estável, com elenco, diretores e técnicos e a desenvolver uma dramaturgia própria.

O Bando surgiu em 1990, em Salvador, no momento em que a cena artística da cidade passava por transformações e se afirmava como um espaço de discussão e vivência das organizações de defesa da cultura negra. Anos antes, nas décadas de 1970 e 1980, a criação de blocos afro e grupos teatrais negros que deram destaque à musicalidade e exuberância ritual dos afrodescendentes, garantiram uma integração maior entre o movimento artístico e a resistência negra, fortalecendo a auto-estima da população afrodescendente e valorizando a estética de matriz africana.

Entre esses grupos teatrais que se alinharam à luta do movimento contra o racismo, na década de 1980, estão as companhias Palmares Iñaron, o Grupo de Teatro do Calabar, o Vandré do Bom Juá e o Grupo de Teatro do Movimento Negro Unificado (MNU) que, em 1982, montou Yas, anônimas guerreiras brasileiras, com direção de Antonio Godi e Firmino Pitanga, e reunindo importantes lideranças negras femininas como Luiza Bairros, Valdeci Oliveira, Saraí Santos e Rejane Maia (a atriz atualmente integra o Bando de Teatro Olodum, além de atuar no grupo Beje Eró, uma ação arte-educadora para as crianças e jovens). Neste cenário, terão destaque também nomes como Arany Santana, Kal Santos, Raí Alves, Nélia Carvalho, Luis Bandeira, Cobrinha, Antônio Mendes, Passarinho, Wilson Santos, Everaldo Duarte entre outras atuações que inseriram a arte negra nos palcos baianos (SANTANA, 2008).

Na década de 1980, Salvador presenciou a intríseca relação entre reivindicações políticas e expressão artística e muitos blocos afro da cidade mantinham atividades teatrais. Mário Gusmão realizou oficinas com o Grupo Cultural Olodum, inclusive auxiliando os músicos e compositores do bloco; no Ilê Aiyê, as ações teatrais eram coordenadas por Everaldo Duarte e Arany Santana; o Ara Ketu criou um grupo liderado por Inácio de Deus e André Mustafá; o diretor Luis Bandeira, do Grupo de Teatro Popular da Bahia, trabalhou em parceria com o bloco afro Malê Debalê; o bloco Muzenza também teve um grupo de teatro na Liberdade (DOUXAMI:2001).

Nessa linha de teatro negro fortemente vinculado à militância, destaca-se o trabalho de Fernando Conceição com o Grupo de Teatro do Calabar, do qual fez parte outro ator do Bando de Teatro Olodum, Jorge Washington. O grupo montou as peças Dia 11 vá à passeata (1983), A Peleja do Povo com o Dr. Coração (1984) e Negra Resistência (1985). Escrita pelo jornalista Fernando Conceição, Negra Resistência foi apresentada na frente da prefeitura e procurava defender a invasão do Calabar, sempre atacada pela polícia.

Esses artistas são herdeiros de três importantes trajetórias negras nos palcos: Xisto Bahia, nosso primeiro destaque nacional (1841-1894), João Augusto (1928-1979), que movimentou a cena teatral baiana ao valorizar a literatura de cordel e Mário Gusmão (1928-1996), um dos mais completos artistas do teatro, da dança e do cinema.

O teatro feito em Salvador nos anos 60 foi marcado pela experiência do Teatro dos Novos que deu destaque à cultura popular, em especial, da literatura de cordel. João Augusto liderou a insatisfação do grupo de artistas que seria a primeira turma graduada pela Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia. O professor, convidado pelo diretor Martim Gonçalves para dividir sua experiência carioca com os estudantes baianos, foi sensível ao descontentamento pelo excesso de estrangeirismo e elitismo da direção da escola. João tornou-se líder do movimento que culminou com a saída dos estudantes da Escola, com a criação da Sociedade Teatro dos Novos e com a fundação do Teatro Vila Velha, em 1964 (MEIRELLES, 2003).

Mário Gusmão foi incorporado ao Teatro dos Novos, destacando-se, nas décadas de 1960 e 1970, pela atuação em peças e em filmes do Cinema Novo. O encontro do ator com o Bando de Teatro Olodum dirigido por Meirelles somente ocorreu em 1995, na peça Zumbi, um ano antes da sua morte do mais importante ator negro da Bahia.

Esses artistas darão continuidade a saga de negros e negras que fizeram da arte popular, em especial do teatro e da música, uma ferramenta de inserção social, sobrevivência material e resistência artística e política. A intimidade dos negros com os festejos, com a musicalidade e com as gingas do corpo, fiéis acompanhantes dos africanos, seja no labor, na luta, na diversão ou no encontro com o Sagrado, permitiu a manutenção da cultura dos descendentes de africanos espalhados pela Diáspora negra.

Após os horrores do seqüestro de africanos e os quatro séculos de escravidão no Brasil, os negros e negras foram, em 1888, atirados à própria sorte, na condição de “libertos” que não lhe garantia a plena cidadania. No final do século XIX e início do XX, a população negra encontrou dificuldade de inserção no mercado de trabalho, ocupado por imigrantes que chegavam incentivados pela política de embranquecimento do país. Buscou-se, então, como sobrevivência simbólica e ganhos materiais mínimos, os canais informais do meio artístico, das manifestações populares, do teatro e da música (CARREIRA, 2001).

A caminhada tem sido longa e árdua, mas os frutos aparecem. Seja através do sucesso alcançado pelo Bando de Teatro Olodum, com seu discurso político e estético inspirador de outras experiências fora da Bahia, como a Companhia dos Comuns, criada em 2001, no Rio de Janeiro. Seja através da intensa mobilização em torno do Fórum de Perfomance Negra, que reúne grupos de teatro e dança negra do país inteiro. Destaque para os grupos baianos como a Companhia de Teatro Cirandarte, Cena Um, Art&Sintonia, Teatro Popular da Bahia, Grupo Nata, Filhos da Rua, Cia Axé do XVIII, Cia de Dança e Teatro E², Projeto de Iniciação Musical (PIM), Grupo Kulturart, Dudú Odara, Anexu’s, entre outros (MELLO, 2006). Cada grupo com suas escolhas estéticas, revelando a diversidade da arte negra.

As duas edições do Festival de Teatro do Subúrbio (2009 e 2010) tem possibilidade a revelação do trabalho desses grupos e artistas que movimentam a periferia da cidade. É o caso do Projeto de Iniciação Musical (PIM), de Fazenda Coutos, Subúrbio Ferroviário de Salvador, grande novidade entre os vencedores do Prêmio Brasken 2010. O PIM garantiu as premiações de Melhor Espetáculo Infantil, para a peça Os Donos da Terra, e de Melhor diretor para João Gonzaga, rompendo com uma longa ausência de diretores negros premiados. Outras exceções anteriores foram João Lima (Melhor Direção 2005, O sapato do meu tio) e Angelo Flávio (Revelação 2008, pela direção dos espetáculos do Coletivo Abdias do Nascimento). Entre os atores negros recentemente reconhecidos pela mais importante premiação do teatro baiano estão: Érico Brás (Áfricas, 2007), Jussara Mathias (A casa dos espectros, 2006), Evérton Machado (Barrela, 2006), Joilson Oliveira (Navalha na carne, 2006) e o próprio Angelo Flávio (O Evangelho Segundo Maria, 2004).

Para entender como os artistas negros buscam aliar um aperfeiçoamento das habilidades e técnicas a um pensamento político de indignação e constatação das desigualdades, basta observar a trajetória de Ângelo Flávio, criador do Coletivo Abdias do Nascimento. O CAN reúne artistas inspirados na trajetória do dramaturgo, poeta e artista plástico, criador do Teatro Experimental do Negro, em 1944, da qual surgiram talentos como Léa Garcia, Ruth de Souza, Milton Gonçalves e Haroldo Costa. Em quase cem anos de vida, Abdias do Nascimento é o mais completo exemplo de luta contra o racismo, utilizando estratégias política, intelectual e artística.

Em uma década de carreira, com atuações no palco (Os Iks, Mãe Coragem e O Evangelho Segundo Maria e a Casa dos Espectros) e no cinema (Quincas Berro D´Água, Estranhos, O trampolim do Forte e O fim do homem cordial), Ângelo Flávio vem denunciando o eurocentrimo do teatro baiano e da Escola de Teatro da UFBA. No CAN, Ângelo tem aliado criatividade e consciência política, ao atuar como roteirista, ator, diretor de elenco e encenador. A força das imagens produzidas por Ângelo e pelo CAN causa sensações e impactos de uma arte teatral encarada com dignidade, verdade e entrega. É a performance de estética negra acompanhando as conquistas e lutas pela cidadania e dignidade dos negros e negras do Brasil.

André Luís Santana alosah@gmail.com é jornalista , editor do Portal Correio Nagô (www.correionago.com.br) e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem (PPGEL /UNEB), onde desenvolve a pesquisa “Olhe para o negro na mída, olhe: a representação da cultura popular negra em Ó paí, ó”, sob orientação da Profa. Dra. Maria do Socorro Carvalho.

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