domingo, 12 de setembro de 2010

Negra Bahia. Circuito Étnico – Afro



Por Patrícia Bernardes

(Jornalista e Gestora Social)

O que Castro Alves diria desse título?E Abadias Nascimento? E a querida Cyana Leahy-Dios? Foram tantos anos de textos transcritos e/ou traduzidos, foram tantos anos de luta “neurolingüística”, foram tantas linhas de projetos para promover a atual “caminhada” de reparação a etnia negra... E finalmente podemos chegar à leitura desse título textual sem associações nocivas, antigamente geradas por expressões errôneas de comparação a cor da nossa pele.

A “Negra Bahia” nada mais tem haver com a situação obscura de violência nas diversas cidades do Estado, em sua maioria de afrodescendentes. A “Negra Bahia” nada tem haver com a desigualdade financeira vivida pelas Comunidades Quilombolas, Indígenas, Comunidades Negras do Recôncavo Baiano e nem tampouco com os bairros periféricos de Salvador que abrigam os grandes Blocos Afros de matriz africana e de conhecimento internacional.

O novo entendimento da “Negra Bahia” nos remete a quão rica é a nossa história e como somos capazes de mudar um termo, uma visão, uma ideologia errônea através de movimentos de conscientização, por vezes até, sem a permissão dos que julgávamos nossos gestores ou autoridades em nosso próprio processo de democratização igualitária. Somos fortes e para tanto, quase sempre, achamos que somos “vozes solitárias” em meio a tantos “gritos burocratizados” para atender as nossas demandas.

Estamos em 2010 mais o que diriam de nós se falássemos assim:

- Esperar? Mas o quê? Que a população este vento que os tronos despedaça. Venha abismos cavar? (Castro Alves. In “Estrofes do solitário”)

Pois é... O poeta Castro Alves já tentava nos dizer que somos únicos, singulares e que unidos poderíamos dar voz a nossa recém intitulada “Negra Bahia”.

Como é produtivo organizar comunidades de forma ética para não mais ouvir expressões, antes rotineiras como:

- “ Desci do ônibus agora.Aff! Tô fedendo a nêgo.” ( Associando-nos a sujeira,imundícia)

-“ Nossa a lotação estava tão cheia hoje. Parecia um navio negreiro”. (Associando ao sacrifício de locomoção )

- “ Aquela moreninha é linda não é? Ela é do Candomblé ? Estampas grandes a roupa dela.Visual exótico . Um pouco chamativo mais é bonitinho não é?” ( Associando ao nosso jeito de nos vestir, nossos acessórios e penteados dos nossos cabelos.)

Entre tantas outras expressões que podemos nos lembrar ao longo desta leitura.

A vitória é essa... Exatamente essa!!!Não estamos errados... Estamos sendo nós mesmos. Essa é a “Negra Bahia”.

Temos atualmente Estatutos, Secretarias, Ministérios que nos amparam juridicamente nestes aspectos porém , não espetacular atravessar a rua das nossas residências e assistir a chegada de uma frente fria chegando a nossa cidade sem sermos constrangidos por um vizinho dizendo:

- “ Nossa a coisa vai ficar preta. Olha que nuvem negra no céu”.

Ou então, em meio às atribulações do nosso dia a dia no trabalho ouvir aquela expressão:

- “ Acho bom você adiantar logo seu lado ou então a coisa vai ficar preta pra você. Tem uma nuvem negra rondando seu nome na lista do chefe lá na gerência”

Como é gostoso quando estas expressões deixam de ser utilizadas por senso educacional promovidos pela educação doméstica e não por ação judicial. É nisso que precisamos nos parabenizar e incentivar.

Atualmente estamos vivendo o frisson da chegada de mais uma Primavera na Bahia. O que antes era promovido somente no Verão do Nordeste, tem sido incluído nas demais estações durante o ano no Estado. Sabemos que é uma caminhada lenta mais os avanços já estão sendo visualizados. Quais? Vamos lá.

O Acarajé

O simples ato de comer um acarajé é um deles. Eu diria o mais rotineiro e mais desmistificado desde então. A sua história/origem foi apresentada ao Brasil e esse mesmo quitute foi tombado com toda a sua essência africana estudada, divulgada e sem ter seus valores distorcidos por quem o faz para vender. Os radicais religiosos tentam mais não conseguem retirar o que os anos de história africana nos deixaram. Somos hospitaleiros e democráticos no que diz respeito a isso. Normalmente a polêmica só vem à tona quando uma “minoria” menos esclarecida tenta afirmar que o seu “tabuleiro” é de Deus e não é consagrado ao Diabo como é feito pelas baianas tradicionais. Existem outros quitutes que servem para a venda e sobrevivência destes empreendedores informais e, contudo, eles não os buscam. Acham mais prático denegrir e/ou humilhar hábitos culturais aos quais eles mesmos não têm interesse de conhecer mais ficam motivados pelo lucro que este mesmo quitute pode vir a dá.

Samba de Roda

Quem disse que o samba é cantado pra chamar “espíritos de luxúria e/ou padilhas” ou promover a discórdia e a lascívia numa comunidade e/ou cidade? É o clímax da ignorância histórica, porém também precisou ser desmitificada através da pesquisa minuciosa de historiadores até a chegada de publicações científicas com a ordem cronológica destas rodas de samba promovidas pela Bahia e pelo Brasil. A riqueza de um povo é cantada em letras de fácil assimilação e com expressão facial de alegria e satisfação a qualquer tempo. Seja na colheita prospera das frutas, na chegada de uma nova criança a uma aldeia, a chegada de uma nova estação, etc... Cantar e mexer os quadris sempre foram parte importante no processo histórico de uma família indígena, africana, quilombola e ou de qualquer outra etnia. Dançar em semicírculo significa apresentar a cada convidado presente que naquele momento uma benção foi entregue aquele povo.

A idéia de mulheres semi- nuas rodeadas de cigarro , bebida e homens casados e/ou solteiros, foi levada de forma patética e errônea ao Samba de Roda já que este era sim um hábito dos Cais de Porto ou Férreo presente em toda extensão marítima e terrestre no Brasil. Os bordéis eram uma realidade da época e hoje já possuem até outras nomenclaturas – que não é o caso desertar agora.

A Capoeira

Como é especial uma apresentação de uma roda de capoeira. Nada tem haver com o que antes era relacionada. Os movimentos de defesa e auto controle de cada capoeirista nada tem haver com idéia de gangues de assalto ou insulto às demais autoridades de um Estado. Cada cântico acompanhado em um berimbau revela a relação árdua de uma realidade passada pelos negros para sobreviver nas senzalas e nos navios de tráfico negreiro. Sobreviver não tem haver atos de violência. O mau hábito de nos referenciar a atitudes violentas no dia a dia nos faz ouvir a expressão:

- “ Cuidado que esse nêgo tem ginga, tem mandinga. Ele sabe Capoeira. Pode te derrubar em dois tempos”.

Capoeira é defesa, é autocontrole. Uma arma de fogo bem calibrada não pode ser comparada a uma arte corporal de matriz africana. O óbito gerado por uma arma de fogo é incomparavelmente mais letal que uma rasteira entre capoeirista numa roda festiva para turistas.

O fato é que atualmente a alegria de sermos chamados hoje de moradores da “Negra Bahia” nos tem feito pensar. Digo a expressão “ alegria” não por referência governamental ou partidária ( não sou ligada a partido político algum) é a nossa expressão exata de quem vencemos diante de muitas reuniões , chicotes , ações judiciais e que ainda podemos fazer muito mais. Temos um poder desconhecido por muitos, contudo capaz de mobilizar estados, promover sites, blogs, órgãos não governamentais através da pura e simples comunicação organizacional.

Se um bairro tem ações afirmativas em prol da sua matriz cultural ele possui representação verbal. Se uma cidade do recôncavo tem ações afirmativas em prol da sua

matriz cultural ele possui representação verbal. Se um templo de matriz africana de culto religioso tem ações afirmativas em prol da matriz cultural ele possui representação verbal.E por aí vai.... O que nos faltava era entender que organizados falamos em nome de muitos e ajudamos os recém chegados a seguir novos passos a fim de diminuir os “açoites” que já sofremos nesta caminhada de reparação e atitudes igualitárias no bem viver.

A Educação é uma aliada forte na busca da desmistificação de pequenos hábitos nocivos ainda presentes nos rolls de Secretarias, Ministérios, Pontos de Cultura Afro, Seminários, Congressos, Coletivos, Ongs, Ocips, Associações ou até mesmo Blocos Afros. O roteiro de turismo étnico - afro não é uma e nem deve ser ação de divulgação de uma Secretaria de Turismo do Estado ao qual pertencemos. Quando convidamos um amigo para vir a Salvador devemos ter previamente em nossa conduta hospitaleira que o ônibus que o levamos para um acarajé no Curuzu, ou um Salão para trançar os cabelos na Liberdade, ou chegar a Cachoeira também faz parte de um roteiro carinhoso feito por nós mesmos conceituado por gestores de “ Roteiro e/ou Circuito Étnico – Afro”.

Somos seres pensantes e nossa ação afirmativa em prol da igualdade racial só mudará quando entendermos isso. Quem disse que um Festival de Rap no Subúrbio com Crianças da Comunidade pode ser nocivo para nossa imagem para um turista vindo de fora? Quem disse que aprisionar nossos amigos em restaurantes com central de ar é diversão ao invés de levá-los para comer uma dobradinha no Largo do Garcia? Quem disse que a Costa do Sauipe é mais interessante do que um ensaio de Partido Alto na Federação, Politeama ou na Rua Chile?

Educamos nossas mentes e transmitimos isso aos jovens. Chegou a hora de também educar nossos convidados- nossos turistas. A “Negra Bahia” não é uma senzala separada em seu território por prefeitos. Somos um Estado rico culturalmente e precisamos nos “ reparar” para modificar isso.

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