sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Equação da paz na Senzala do Barro Preto


Sorriso tímido, passos curtos no caminhar e vestes branca na tradição da sexta – feira em Salvador, Gelton de Oliveira, coordenador da Escola Profissionalizante da Senzala do Barro Preto aceitou o meu convite como jornalista freelance para esta entrevista.

Em um bate papo descontraído, o homem com jeito de “menino” fala sobre sua infância, movimento negro, desafios na gestão no Curuzu, exemplos de sucesso, restrições pedagógicas e muito mais...

Qual o seu nome e profissão?

G.O: Meu nome é Gelton de Oliveira. Sou coordenador dos Cursos Profissionalizantes e também faço trabalhos pedagógicos aqui.

Aqui onde?

G.O: Aqui no Ilê Aiyê. Durante o ano nós realizamos vários projetos com relação à profissionalização de jovens. Esses projetos são financiados pelo Governo do Estado que é o que nós estamos trabalhando agora; Projeto Novos Baianos. Ou pela Petrobrás. A Petrobrás também nos ajuda a fazer este trabalho de cunho social.

O que está sendo disponibilizado para os jovens daqui da Comunidade?

G.O: Esse ano nós estamos disponibilizando três cursos. Curso de Profissional em Vendas, Eletricista Predial e o Curso de Corte e Costura. Então nós temos uma meta esse ano (2010) de atender em torno de 240 jovens nas duas edições. A primeira e segunda edição de forma igualitária com 120 jovens. Estes cursos eles tem uma duração de seis meses em média com carga horária de 200hs e funcionando em turnos (Matutino/Vespertino/Noturno).

Como a Comunidade responde aos Cursos oferecidos aqui?

G.O: Quando fala em abertura de curso profissionalizante, agente tem cuidado em tá divulgando isso por que o telefone não para, a frente da sede fica cheio de gente. As pessoas têm vontade de estar inseridas aqui dentro, as pessoas procuram. E nossos cursos já têm uma visão dentro da comunidade muito positiva.

Como tem sido a vida destes jovens pós curso?

G.O: A maioria destes jovens, ao terminar estes cursos, quase que automaticamente eles estão si inserindo no mercado de trabalho. Se ele ( o jovem) veio pra cá e fez “ o dever de casa” certo, fez “ a lição certa”,certamente ele vai estar empregado. Principalmente se eles estiverem nos cursos de Eletricista, Instalador Predial. Cursos como de Estética Afro é muito procurado. Lida com visual, com estética, com cabelo. Nós fizemos um curso de dança e percussão que também foi muito bom. Então os cursos daqui têm uma resposta muito positiva para os jovens da comunidade. Sem sombra de dúvida...

Pra você, qual o prêmio maior recebido neste curso?

G.O: Quando um jovem aparece aqui e diz: “ – Pô , tô empregado.Consegui emprego.Tô com minha Carteira Profissional assinada.” Eu tenho uma história de um jovem que eu sempre gosto de relatar, daqui da Comunidade.Ele é muito estudioso. Ele veio aqui, se inscreveu no Curso de Eletricista, freqüentou as aulas. Ao término deste curso, houve um processo seletivo na Codeba. Ele foi pra lá, se inscreveu, ele ainda não tinha o certificado mais entrou como ajudante. E com três meses ele já estava com a carteira de trabalho assinada e atualmente ele é encarregado da área de manutenção da empresa. Então isso é muito gratificante pra nós, pra Instituição e para a Comunidade.

E a questão das drogas? Como é discutida aqui?

G.O: O que está ceifando muitas vidas, principalmente de jovens negros da periferia ,são as drogas. A falta de ter o que fazer,a ociosidade. Então esse trabalho que a gente faz aqui , ele tem uma resposta positiva por que ele dá o que fazer aos jovens. Dá uma profissionalização pra ele ( o jovem). Então ele não vai ter tempo de pensar em coisas ruins. Em roubar em cometer pequenos delitos, de se envolver com drogas, com o tráfico. Ele vai tá com o tempo dele todo ocupado. Em um turno ele está na escola e no outro turno ele está aqui estudando. Ao final do dia ele vai estar cansado. E quando a gente está cansado o corpo pede agente “cama”. A pessoa não vai ter pensamento a não ser no outro dia voltar a sua rotina de crescimento pessoal e profissional.

É gratificante? Vale a pena?

G.O: Trabalhar com profissionalização, trabalhar com jovem é gratificante por isso. Você salva cada um destes. Que nós sabemos que no estado que agente mora, na cidade de Salvador, na periferia em cada esquina pode ter um traficante pode ter um ponto de drogas e dinheiro fácil está aí pra isso. Esse dinheiro fácil ceifa muitas vidas em um curto espaço de tempo. E isso é a nossa grande preocupação.

Essa é uma relação sadia o lúdico e o concreto?

G.O: É assim que agente trabalha aqui. É muito importante quando você quebra certos paradigmas. Por exemplo, estudar Matemática. Muita gente não gosta. Mais se você traz uma novidade, traz uma coisa que está dentro do contexto seu e do cotidiano do aluno ele vai gostar. Então dentro das letras e músicas daqui do Ilê Ayê e outras músicas que são interessantes e fazem o crescimento da pessoa, você pode usar tudo. Você pode trabalhar Matemática, pode trabalhar Ciências, a Língua Portuguesa. Tudo você faz com isso. Então agente está sempre buscando uma inter-diciplinalidade. Entre o lúdico e a formação profissional em si. É muito positivo você está veiculando a cultura com a formação profissional. Isso é conscientização e cidadania. Isso agente faz também.

Tem haver com sua história no Movimento Negro?

G.O: Eu participei do 1° SENUN (Seminário para Universitários Negros). Este seminário nasceu aqui. Ele nasceu no Instituto Steve Biko que antigamente era Cooperativa Steve Biko. Fui professor de matemática de lá cerca de quatro ou cinco anos é nós ajudamos a construir o SENUN. Como o Instituto Steve Biko é meu referencial, foi lá que eu comecei minha luta neste contexto de Cidadania e Conscientização Negra. Fui oriundo do MNU ( Movimento Negro Unificado) então eu tenho uma certa “andança” se é que podemos dizer assim neste contexto de Cidadania. Conscientização e Negritude.

O que você, como militante negro, diria ao Bloco Afro Ilê Aiyê?

G.O : Aqui ( Senzala do Barro Preto) é um espaço que será inserido no meu currículo não é? Aliás, já está. Pra mim é um prazer trabalhar aqui. Eu visto a “camisa”. Eu gosto do que faço. É muito interessante. E tem esse reconhecimento da Comunidade, da própria Instituição, do Corpo Dirigente. É muito legal, muito bacana.



Entrevista com Gelton de Oliveira / Coordenador de Cursos Profissionalizantes na Senzala do Barro Preto (Curuzu). (Bloco Afro Ilê Aiyê 2010)


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