sexta-feira, 16 de julho de 2010

Salvador fazendo a cabeça de todos


A indumentária afro-brasileira sobrevive até os dias atuais como símbolo da cultura, da religião e da resistência dos negros no país. É marcante, na identificação da roupa da baiana, a cabeça coberta com tecido de diferentes formatos, texturas e técnicas de dispor, conforme intenção social, religiosa e étnica, ente muitas outras. O nosso turbante afro-brasileiro, conhecido pelo nome de torço, ou ainda ojá, é, sem duvida, de origem afro-islâmica – uma maneira de proteger a cabeça do sol dos desertos ou de outras áreas tórridas e quentes do próprio continente africano. Contudo, ampliam-se seu uso e função, distinguindo a mulher em diferentes papéis sociais, compondo estéticas que dizem das condições econômicas e das intenções de uso, exibindo muitas vezes detalhes, sutilezas despercebidas pela maioria. Há significados em manter o torço com orelha, orelhinha, sem orelha – incluir determinadas folhas – no uso de pano branco engomado detalhado em richelieu (bordados) nas pontas, totalmente liso e discreto ou listrado, de diferentes cores, em brocado, em seda, lamê, entre tantos. O torço protege o ori - cabeça; para as mulheres iniciadas no Candomblé, o estar de torço tem significados próprios, como também o estar sem torço, em momentos religiosos especiais, estabelecendo contatos mais diretos Dobravam o tecido em formato triangular, com a ponta para trás. Preocupadas em esconder o cabelo, as muçulmanas amarravam o turbante com as pontas soltas para trás. Por mais posses e dinheiro que um iniciante tenha, ele terá que começar como todos os outros: vestindo a roupa de ração. Para as mulheres, a saia de crioula. A cabeça, parte do corpo mais importante por guardar o Axé, estará sempre coberta pelo ojá. Tudo sem rendas, babados ou decotes. Durante o período da escravidão, era comum perceber as diferenças entre as culturas africanas trazidas ao Brasil através de detalhes da roupa. Entre as nagôs, o ojá era amarrado com várias voltas ao redor da cabeça. Já as negras Jeje usavam um lenço sobre os cabelos. Dobravam o tecido em formato triangular, com a ponta para trás. Preocupadas em esconder o cabelo, as muçulmanas amarravam o turbante com as pontas soltas para trás. Cobrir a cabeça era tão importante para o povo antigo que, de acordo com muitos relatos, era tradição, só sair de casa com torço ou chapéu. De acordo com José Valladares, em “O torço da Bahiana”, mais de uma razão levava a crioula a conservar a cabeça protegida. “A primeira é resguardá-la contra o sol, sereno e chuva. A segunda é de ordem religiosa: realmente, se não com um turbante, como poderia sair à rua a Filha de Santo que terminou sua iniciação e que por isso está com a cabeça raspada?”. Um pedaço de pano pode simbolizar a sobrevivência de toda uma identidade e conservar detalhes fundamentais de uma cultura. É possível perceber as diferenças entre o Povo de Nação Jeje, Angola e Iorubá apenas pela maneira de amarrar o torço na cabeça, só para citar um exemplo. O simples gesto de prender os cabelos em um turbante, herança que sobrevive através das vestes das baianas de acarajé, preserva a riqueza de um hábito iniciado do outro lado do mar.

“O torço da Bahiana” - José Valladares


Um comentário:

Lidiane Ferreira disse...

Amei a nova cor do layout do blog!
Beijão grandão!