sábado, 13 de junho de 2009

"Linguagem, mito e religião."


"O homem é na linguagem, ou seja, o homem se projeta na linguagem e se realiza como força criadora de significados para si mesmo, para os outros e para o mundo. Além disso, o significado do mundo, do outro e de si mesmo vem sendo transmitido desde os ancestrais, sofrendo modificações e se reorganizando em novos contextos. As particularidades desse conhecimento levaram à formulação de uma linguagem identificadora do homem que a utilizava. Para manter os laços com suas tradições, o homem negro teve de encontrar meios específicos para expressá-las, evitando muitas vezes o uso da linguagem cujo significado podia ser apreendido mais imediatamente. As perseguições resultantes de uma sociedade violenta e a necessidade de criar sistemas de autodefesa fizeram com que os negros reconstruíssem sua linguagem com recursos que lhes permitissem estabelecer a comunicação entre si e vedar o acesso de estranhos a essa comunicação. Na vivência religiosa, essa linguagem, que chamaremos de simbólica, predominou. A linguagem simbólica que estamos considerando é uma realização verbal (palavra) que procede da interpretação de mundo baseada no sagrado. É a linguagem imantada do mito, portadora da força que inaugura as realidades materiais e imateriais. A raiz dessa linguagem é a metáfora. Porém, não se trata da metáfora simples, que torna possível a uma palavra ocupar um campo de significação que não é o do objeto nomeado por ela. Em geral, a mudança do campo de significação da palavra acontece por causa de alguma semelhança ou analogia existentes entre os objetos nomeados.A linguagem simbólica é formada pela metáfora simples e por outra metáfora radical, que navega nas águas primordiais do mito e funda as relações entre o humano e o divino. "

por: Ernest Cassirer. no livro "Linguagem, mito e religião."

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