quinta-feira, 30 de abril de 2009

Lei Maria da Penha também será aplicada entre lésbicas


por Lyh Teixeira e Dai Rodríguez


Muito é discutido sobre a violência praticada pelos homens contra as mulheres, seja no lar, na rua ou no trabalho. A lei Maria da Penha está em vigor para punir esses agressores em potencial na nossa sociedade e amparar as mulheres vítimas de tais atos. O índice de violência masculina contra as mulheres é bastante alto aqui no Brasil, representado XXX%, deixando de fora é claro, um número expressivo de mulheres que são agredidas, mas que não buscam os seus direitos e preferem se calar por vergonha ou medo de sofrer represálias. Porém, existe um tipo de violência que está presente em nossa sociedade e que é tão grave quanto à violência masculina: é a violência entre mulheres, seja a violência gerada pela inimizade entre mulheres ou para ser mais específica, a violência doméstica entre parceiras que convivem juntas.

A violência entre lésbicas existe na nossa sociedade, porém, é um assunto tratado de uma forma muito velada, inclusive dentro do próprio meio LGBT. Neste último caso, as vítimas que procuram auxílio em uma delegacia sofrem duplamente – primeiro pela violência já sofrida e segundo – o preconceito por serem homossexuais, já que a polícia brasileira no geral, não possui profissionais preparados para atender esse tipo de caso. Isso se explica a quantidade de casos que acontecem desse gênero. Nós sabemos que eles existem, mas eles não são levados em conta nas estatísticas simplesmente porque a mulher lésbica agredida prefere o silêncio do que vir a se expor. Tornando-se bem evidente se formos levar em consideração a classe social dessa lésbica: quanto maior o grau de estudos e de posição social, menos essas mulheres vão procurar seus direitos por medo de ter que expor a vergonha de ser agredida e principalmente, em ter que revelar-se homossexual.

É evidente que a violência doméstica entre lésbicas de um poder aquisitivo e de instrução maior aconteça, mas são casos abafados pelas duas, a agressora e a agredida. Geralmente pela posição que ocupam no trabalho, assim como em outros âmbitos sociais, elas preferem manter-se na já vivida invisibilidade lésbica. É praticamente impossível para uma lésbica como essa, que sempre procurou não expor a sua sexualidade para a família e para a sociedade, chegar a uma delegacia dizendo que apanhou da sua companheira.

Geralmente a agressão física ou qualquer ato que se caracterize como violência acontece quando uma das duas tenta manter o controle e poder sobre a outra, seja motivada por ciúme ou qualquer outro sentimento que lhe traga insegurança. O relacionamento começa a desandar e quando a parte dominante começa a perceber que não consegue manter o controle e domínio sobre o outro, parte para a violência, que pode vir de diversas formas, sempre culminando na agressão física.

De acordo com algumas fontes pesquisadas, a violência doméstica entre homossexuais só começou a ser estudada na década de 90, vinte anos depois de terem dado início aos estudos de violência doméstica entre heterossexuais. Para muitos, inclusive hoje em dia, é quase inconcebível que haja violência entre casal de lésbicas, simplesmente pelo mito implantado na nossa sociedade de que mulheres não são violentas e que por se tratar de uma relação entre iguais, as lésbicas estariam fora de uma relação de poder e por tanto longe da violência. Porém, as lésbicas estão suscetíveis a sofrer as mesmas formas de agressão vividas por uma mulher heterossexual: são vítimas de parceiras extremamente ciumentas (leia-se ciúme doentio!), manipulações psicológicas, agressões verbais, alcoolismo, drogas ou problemas psicológicos graves. No livro “Homossexualidade, do preconceito aos padrões de consumo”, único trabalho existente sobre a violência doméstica entre lésbicas aqui no Brasil, a psicóloga Adriana Nunan afirma que as agressões entre homossexuais são bastante semelhantes as que ocorrem entre os casais heterossexuais e ainda relata que a lésbica mais assumida, na maioria das vezes, é o tipo mais ameaçador em uma relação. Um exemplo do que a psicóloga expõe nessa fala, está no relato de algumas lésbicas que já foram agredidas: a primeira forma que a agressora procura fazer para intimidar a outra, é ameaçando com a revelação da orientação sexual. Porém, é importante ressaltar que não só as lésbicas masculinas é que são violentas. A ameaça de revelar ou a revelação da orientação sexual também é uma forma de agressão chamada de ‘outing’. Aliás, a ameaça de revelar a situação da homossexualidade é a única coisa que distingue a violência entre casais homossexuais em relação às relações heterossexuais.

O ciúme desempenha fator determinante em algumas relações. Pode ser motivado pela insegurança, medo ou simplesmente fazer parte de uma mente fantasiosa. Trata-se do ciúme interno, que sai de dentro para fora, sem haver a necessidade de fatores ou causas externas. A idealização do ser amado também é algo determinante: idealizamos uma pessoa para nós, mas inevitavelmente o ideal não corresponde ao real, e aí começam a surgir as brigas e os desentendimentos que por vezes, dão lugar as agressões já que a agressora compreende que essa seja a melhor resposta para os problemas vividos na relação com sua parceira.

Existem inúmeros casos e inúmeros motivos irracionais para uma relação culminar deste modo trágico. De acordo com informações do site Desalambrando, um projeto argentino dedicado à violência doméstica entre lésbicas, as estatísticas revelam que boa parte dos casos é de violência extrema e que existem diversos registros de casos de assassinato, além de tentativas de suicídio, humilhações, abuso sexual e insultos verbais.

Qual é o momento certo de por um ponto final em uma relação baseada nos princípios da violência?! A partir do instante que você estiver se sentindo lesada moralmente, fisicamente e/ou psicologicamente e vir que mesmo depois de inúmeras conversas entre você e ela, a situação permanece a mesma ou pior: está aumentando rumo ao total descontrole! A base do amor é a confiança e o respeito mútuos, e quando isso é deixado de lado, dificilmente conseguiremos reconquistar esses valores. Por mais que uma relação esteja fadada a terminar seja lá qual for o motivo, há de haver um consenso, uma conversa e jamais pensar que aquilo é o fim do mundo: nunca seja ou nunca se ache dependente daquela pessoa. A dependência na maioria dos casos leva à possessão. Para que encher de rancor e magoa o coração de alguém que tempos antes fizemos juras de amor? Xingar, bater e humilhar são as formas mais estúpidas de resolver problemas em um relacionamento. Pense nisso.


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