segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Ilê Axé Opô Afonjá: 97 anos de Cultura Africana

* eu estive lá (Patrícia Bernardes)
- entrevista dada por Mãe Stella ao site Terra Magazine.
Em 1910, na Cidade da Bahia, na distante periferia de São Gonçalo do Retiro, sob os auspícios do Senhor da Justiça, o orixá Xangô, nascia o atuante terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, que em português significa: Casa da Força sustentada por Xangô. Este ano o terreiro completa 97 anos de existência, prestando um inestimável serviço a favor da preservação do culto aos orixás, dentro de uma estrutura sócio-religiosa que os mais relevantes estudiosos do candomblé baiano, como o prof. Vivaldo da Costa Lima, chamaram de modelo jeje-nagô.
A cena pode se repetir em outros sábados e manhãs, nos domínios do Opô Afonjá. Brasileiros anônimos e famosos - entre estes, Jorge Amado, Dorival Caymmi, Carybé e Gilberto Gil -, encontraram em Mãe Stella a clarividência de conselheira. Há 31 anos à frente do terreiro, ela agora lança o livro de "Provérbios" (Òwe), alguns em iorubá, outros em português castiço.
Nascida em 1925, escolhida ialorixá em 1976, sua liderança religiosa marcou a história do Candomblé. Em 1983, na II Conferência Mundial da Tradição dos Orixás e Cultura, em Salvador, Stella articulou a elaboração de uma carta que rejeitava os cultos sincréticos, a submissão a outras religiões.
"Não podemos pensar nem deixar que nos pensem como folclore, seita, animismo, religião primitiva", dizia o documento, também assinado por Mãe Menininha do Gantois e Olga de Alaketo.
Candomblé não é brincadeira.Consolidada a liberdade de culto, os terreiros da Região Metropolitana de Salvador - cerca de 1.162, segundo recente mapeamento (http://www.terreiros.ceao.ufba.br/) - sofrem com as agressões das igrejas neopentecostais e com a especulação imobiliária. Mãe Stella se sentiu obrigada a murar o Opô Afonjá e a aceitar o tombamento do terreiro.
O prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro, é evangélico praticante. Mínima simpatia pelo Candomblé. O primeiro colocado nas pesquisas eleitorais para a sucessão municipal, o apresentador da TV Record Raimundo Varela, guarda vínculos estreitos com os bispos da Universal.Segundo Mãe Stella, muitos políticos "têm receio de dizer que estão ajudando." Ela descrê na vitória dos neopentecostais.
Senhora de poucas palavras em entrevistas, ela conversa amigavelmente, sem pressa, com Terra Magazine. Está em dia de fartos, comedidos verbos, na Casa de Xangô. Comenta a publicação do livro, a história do Opô Afonjá e não se nega a falar sobre o movimento negro.
"Cotas pra mim... O negro tem obrigação, como todo o ser humano, de ser inteligente, de ir pros livros, fazer pesquisas, dar conta de seu recado direitinho. (...) Esse negócio de passar a mão na cabeça... Não há mais necessidade disso. Cada um de nós tem que ter a condição de escrever a sua própria história."


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