quinta-feira, 8 de maio de 2008

Danos causados pelo crack é avaliado por psicóloga da UFBA

por Patrícia Sousa (Jornal Infociência 2008.1)

“Craqueiros e cracados: Bem vindo ao mundo dos nóias” é o tema da tese de doutorado da antropóloga social Andréia Domanico, apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas em pesquisa realizada em 2006, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) que pretendeu explicar o estudo sobre a implantação de estratégias de redução de danos para usuários de crack nos cinco projetos-piloto do Brasil. Para ela, é necessário uma reformulação de estratégias preventivas para que os agentes se tornem conscientes das necessidades reais dos usuários de crack e melhor entendam a sua realidade. Os cinco projetos-piloto de redução de danos para usuários de crack desenvolvidos no Brasil avaliados na tese são financiados pelo Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde.

Para a antropóloga e psicóloga social já há 12 anos, o ambiente em que vivem os grupos de usuários é definido na pesquisa como “cenas grupais”. Como ponto de partida, a pesquisadora iniciou o seu levantamento de dados contando a história da cocaína e o surgimento do crack a partir do pânico moral e as doenças causadas por este tipo de droga. A questão central levantada em seu doutorado é a relação existente entre os agentes do Projeto de Redução de Danos (PRD) e os usuários.

Os projetos pilotos surgiram para atender as necessidades de compartilhar idéias sobre atitudes preventivas para serem levadas por redutores aos dependentes químicos. Andréia levanta a preocupação com a preparação prática dos profissionais envolvidos no PRD. Os problemas enfrentados durante a pesquisa, segunda a pesquisadora, foram: a precária produção teórica encontrada sobre o crack na Bahia e no Brasil e a impossibilidade de ampliar a pesquisa para além dos danos causados pelo crack, já que este objeto de estudo foi escolhido pela proliferação social de outras doenças como HIV e DSTs.

O PRD ao crack mostrado na pesquisa, foi financiado inicialmente pelo Programa Nacional de DST/AIDS do Ministério da Saúde, segundo Andréia, por apresentar o foco na redução da transmissão das doenças sexualmente transmissíveis a partir do uso desenfreado de drogas injetáveis. A metodologia utilizada pela cientista social, foi a de analisar o processo de implantação e desenvolvimento das estratégias de redução de danos associados ao uso de cocaína fumada (crack).

Em seu doutorado, Andréia chama de “cracados” os usuários de crack e conceitua “nóia” como o efeito causado pelo uso deste tipo de droga. A entrada deste tipo de droga no Brasil se deu entre 1987 e 1989, segundo dados coletados pela pesquisadora no Departamento de Narcóticos da Polícia Civil de São Paulo (DENARC).Seu uso é feito através da quebra da pedra que é misturada com tabaco ou maconha,enrolada num papel fino e fumada.

Os cinco projetos-piloto possuem destaque na pesquisa por mostrar a importância de uma melhor estruturação a partir da capacitação melhor direcionada aos agentes - redutores envolvidos no contato de prevenção aos danos do crack. Segundo a pesquisadora, os poucos projetos que trabalham com usuários de crack usam como base no tratamento destas pessoas a abstinência. O PRD pretendia atender as expectativas dos técnicos envolvidos no cenário encontrado nas ruas.

Outro ponto abordado por Andréia é ausência de estudos para melhor explicar o uso de drogas e a vida sexual dos usuários deste tipo de droga. O desenvolvimento da sua tese se deu com as definições de como é feita o uso do crack, o uso desta droga ao longo de 17 anos no Brasil e a aplicação de programas de ajuda aos usuários. A droga é mais devastadora que a cocaína por atingir os pulmões de forma rápida e apresentar uma sensação de prazer instantâneo que faz com que o dependente sinta uma ansiedade violenta em busca de uma nova quantidade.

O estudo comprova que o efeito do crack não dura mais que 20 minutos no organismo humano, provoca euforia entre os usuários de 5 minutos e é um dos principais motivos da procura contínua por este tipo de droga. O dependente desta droga respira a fumaça que é levada para dentro dos pulmões e daí chega a corrente sanguínea. O crack causa interferência na área do cérebro responsável pela resposta do organismo à sensação de prazer. A dopamina, neuro - transmissor químico do cérebro tem sua função interrompida retirando do cérebro à sensação de sentimento bom no indivíduo ao realizar atividades prazerosas como fazer sexo ou se alimentar. O crack se liga a dopamina atrapalhando o processo normal de absorção pelo neurônio. Isto faz com que a dopamina faça o indivíduo ter uma sensação permanente de euforia.

O nome “crack” é dado, segundo a cientista social, pelo barulho causado pela queima do uso da pedra da cocaína. O atendimento feito aos usuários desta droga ainda é precário para a população de baixa renda.

Os resultados apresentados na pesquisa mostraram que os usuários de drogas são atendidos por serviços de atendimento com funcionários defasados em seu conhecimento. Os avanços nos conceitos e nas normas apresentadas pelo Serviço Único de Saúde (SUS) precisam ser revisto. Ocorreu uma mudança no comportamento dos redutores no trabalho de campo com os usuários. A polícia interfere diretamente nos trabalhos realizados nas ruas, pois provocam uma reação agressiva por parte dos dependentes químicos.

Em 2006, o Projeto de Redução de Danos (PRD) contou com 13 pessoas entre técnicos e redutores. Nos seus primeiros anos, o PRD só contava dois redutores e um usuário como redutor. A equipe, segundo a pesquisadora, sofre uma grande rotatividade por conta dos baixos salários oferecidos, as dificuldades de aproximação e o não reconhecimento por parte do Governo Federal no incentivo desta atividade.

Andréia finaliza seus estudos afirmando que se faz necessário uma adaptação dos redutores para uma aproximação dos usuários por muitos desistirem do tratamento pelas paranóias sofridas constantemente. A ressocialização dos cracados só ocorrerá quando ocorrer um efetivo combate a discriminação por parte dos próprios agentes e a reciclagem dos seus conhecimentos sobre o assunto.

3 comentários:

Fernando disse...

muito legal esta materia meu intuito esta sendo buscar informacoes pois nao acredito que esta droga me causa tais danos fisicos e hoje penso que somente esta concientização possa me fazer ficar limpo pois ja se foram diversas internações e sempre volto ao uso por ser totalmente destemido destes danos, sou empresário de uma familia muito bem constituida onde o unico dano que percebo é nessa relação e apos cada internação é um recomeço até começar a reaver meus bens que acabam ficando em posse de minha familia mas ainda não entendo o que me leva a usar repentinamente quando esta tudo em ordem novamente e com um periodo longo de tempo limpo. o que mais me revolta é que tenho uma mulher maravilhosa que nunca me abandonou e nem por ela fico limpo chega a ser desesperador todo este processo pois com toda terapia e internações não consigo um motivo que me faça ficar limpo pois sempre fiz pelos outros e quando vou fazer por mim.
atualmente meus pais estão no exterior estou na casa do meu irmão apenas 3 anos mais velho que é quem mais se preocupa comigo que diz que jamais ira se perdoar se me perder para as drogas pois após a ultima recaida nesta sexta feira chegou até a sonhar que me enterrava sem a precensa dos meus pais e o pior é que estou revoltado com ele por ter me ameaçado de internação por um periodo de 2 anos e realmente nao acredito em internação pois os meus estimulos estao aqui fora e sao eles que não sei identificar para poder trabalha-los dentro de min pois a programação de NA conheço de traz pra frente e o periodo que mais fiquei limpo com qualidade de vida foi quando tomei a decisão de nao participar mais dos grupos onde é eminente o termo droga.
estou lutando contra essa pessoa que não quero ser mas basta uma fração de segundo para chutar o balde hoje o que esta mais me incomodando é a vontade de voltar para minha casa onde nao é sugerido pois nao posso ficar sozinho e voltar a usar meu veiculo pois sinto estar incomodando na casa do meu irmao pois ele tem mil obrigações como empresario e fica com essa pedra no sapato e o pior levando e trazendo do trabalho mesmo tendo outros compromissos.
é muito dificil todo esse processo e se for muito sincero neste momento o que mais quero é um pegua!

Clarissa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
safira disse...

oi, era usuária de crak tenho 48 anos e quase acabei com minha vida .tentei vários suicídios com isso sei dos danos físicos que me causam fiquei internada por dois meses e as vezes ainda sinto o desejo a internação me fez bem agora tenho consciência que é uma doença que não tem cura mas posso tratá-la posso controlar o desejo.tenho três filhas maravilhosas que nunca me abandonaram por isso muito pelo contrario me dão a maior força para ficar limpa conheço a programação de na La fiquei limpa por um ano e recai quase morri fui internada no Américo Barral e desde fevereiro estou limpa.
Mas ainda sinto desejo. tomo medicação para controlar minha ansiedade e estou bem.também não voltei mais ao na pois La o assunto é só desejo quero me livrar disso estou seguindo uma religião de escolha e agora acho que vai torço para não haver outra recaída pois se tiver sei que será o meu fim tanto físico como material como familiar quero ficar bem.meu no é Márcia e moro na cidade de Mogi Guaçu tenho um marido 24 anos mais novo que eu também é dependente químico e esta na luta contra as drogas arrumou trabalho e esta bem controlando suas ansiedade com medicação que aos poucos vão ser retiradas sei que não é fácil mas estamos tentando e fazendo o melhor de nos queremos ser pessoas dignas e não ser chamados de noia é horrível