terça-feira, 27 de novembro de 2007

Circo é apontado em doutorado como forma de inclusão


Atividades de arte e integração mudam a vida de jovens em Salvador

Por Patrícia Sousa

A Arte Circense passa por um processo de reorganização onde grupos que apóiam a inclusão social retiram das ruas crianças, adolescentes e jovens sem apoio governamental. Com o apoio do Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia (PPGAC), o pesquisador e bailarino italiano Fabio Dal Gallo desenvolveu seu projeto de pesquisa no ano de 2005 sobre o Circo Social.Querendo aprofundar assuntos de caráter artísticos, o pesquisador explica que atualmente o circo social está em crescente importância no campo internacional e ressalta, em particular, a arte circense brasileira. O projeto que tem com pano de fundo a tese de doutorado do pesquisador, é direcionado para a investigação dos espetáculos produzidos pelos projetos sociais que envolvem o Circo. A corrente estética que se inseriu nos espetáculos circense , levou a dramaturgia de cunho social a ser chamada de “Novo Circo”.Dal Gallo tem como bússola em seu projeto de pesquisa as atividades desenvolvidas pelo Cirque du Soleil nos últimos 30 anos. Fundado em Quebec em 1984, o Cirque serviu de base de análise em sua dramaturgia, narrativa e enredo utilizado em seus espetáculos apresentados pelo mundo.

Em 2004 a pesquisa de campo foi iniciada . Fabio ainda era educador e instrutor de malabarismo na Escola Picolino de Artes do Circo. O contato direto com a Ong-Escola fez com que a idéia de inclusão social e o desenvolvimento integral de indivíduos em situações de risco, pudessem ser modificados através da arte circense. Segundo o projeto de pesquisa, o circo social ou novo circo, além de apresentar resultados positivos na inclusão destes jovens, apresenta uma variedade de ações positivas como,por exemplo o ensino das técnicas de circo, teatro, música, capoeira e as inúmeras artes nordestinas.Outro ponto apresentado nos resultado neste doutorado é a busca do treinamento de profissionais que possam passar adiante os fundamentos da

pedagogia e da psicologia com relação aos direitos e deveres da criança e do adolescente.

Bia Simões, professora da Ong - Escola, afirma que a aliança da filantropia com a arte parece ser algo novo em meio às iniciativas de inclusão social, mas não é. Para Bia , existe um perigo escondido na caridade.A população carente precisa entender que tem direitos a educação e a moradia. “ Um jovem vem para a Escola Picolino e não se preocupa em aprender as noções de conhecimentos gerais que ensinamos. Infelizmente a televisão só divulga o lado financeiro da vida no Circo.A batalha dos ensaios e o conhecimento da sua cultura, não é explorado nas novelas e jornais”, completa Bia.

Dal Gallo verificou em sua pesquisa que, desde o começo, a valorização da diversidade cultural e a utilização da cultura popular são importantes métodos para dialogar com os alunos atendidos pela Ong – Escola . A proposta da Escola Picolino de associar o processo pedagógico que envolve crianças de 05 anos à jovens de 20 anos das camadas populares, fez com o projeto de pesquisa levasse o título : “ O Novo Circo Baiano .Arte,Circo e Educação na Bahia” . O projeto de pesquisa tem como intenção fazer com que os alunos desenvolvam um senso crítico através da cultura popular e possa interpretar de maneira melhor o contexto no qual estão inseridos. “Os alunos interagem mais profundamente com o ambiente da comunidade e terminam se transformando agentes multiplicadores da ação desenvolvida na Escola Picolino”, defende Márcia Nunes que é coordenadora pedagógica da Ong-Escola.

A necessidade de uma pesquisa de campo na biografia sobre o Circo, levou para a Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia uma colaboração significativa para acervo bibliográfico. O pesquisador reclama que, antes de seu projeto de pesquisa, não havia registros na literatura acadêmica do local sobre o circo e , em especial , sobre a estruturação do circo social na Bahia .

Viviane Maior, atriz de circo, fala que a utilização dos métodos pedagógicos utilizados na Escola Picolino, influi de maneira forte e radical na dramaturgia dos espetáculos “ A criança absorve valores de cidadania e educação assistindo e participando do espetáculo” , afirma Viviane . Utilizando a base teórica da Escola de Performance , a pedagoga Luciana Damasceno não acredita que somente a filantropia pode reestruturar a situação de risco dos jovens em exclusão social.Luciana é também pesquisadora e critica o governo em “se acomodar” em seu gabinete e tentar usar a história do circo somente como ferramenta de marketing de inclusão social na Bahia.

“A expressão artística e de entretenimento ligados às ruas tem uma estrutura estética de marketing grosseira. A questão do Estado está em administrar com mais eficiência a pobreza e não apropriar - se como seu trabalho feito pelas Ongs,” critica a pedagoga.

O método Paula Freire junto à arte – educação complementa a investigação da atuação de inclusão social destes jovens no estudo feito por Dal Gallo. O espetáculo escolhido especificamente para a expansão do projeto é o “Cenas Cotidianas” apresentado pela Escola Picolino em 2004. Neste espetáculo, foram analisadas as relações e diferenças entre o circo social, o novo circo e o circo tradicional com suas peculiaridades do espetáculo social como gênero único. Luís Silva, 16 anos, é aluno da Escola Picolino e diz que pode sonhar com um futuro melhor para ele e para sua mãe, Glória Silva. “ É bom saber que enquanto eu lavo roupa de ganho , meu filho estuda e pratica esporte aqui nessa escola. Os governantes deveriam ajudar nossas crianças e não esperar que os estrangeiros coloquem o dinheiro aqui”, afirma Glória.

Apontando os valores e as metas que se propõe alcançar através da transformação destas crianças e adolescentes, o pesquisador descreveu que atualmente no Brasil existem dois tipos de escolas: as escolas profissionais e as escolas e projetos de circo social. A campanha da Escola Picolino inserido ao mercado cultural permitiu também aprofundar a análise das disciplinas e às técnicas circenses. A prática de circo social não objetiva o espetáculo como acontece no circo, mas combinam finalidades de educação e de assistência social com valores populares. A busca pela cidadania é aliada a arte em um processo simples de interação para solucionar problemas enfrentados na sociedade em que os jovens estão inseridos .

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